Ambientes Virtuais e Vida Consagrada

23 ago 2015

     Se fizermos uma viagem ao passado, lá onde viveram os hominídeos (família da ordem dos primatas) perceberemos que os mesmos deram início ao que chamamos hoje de “vínculos humanos” ou socialização de pessoas. Criaram suas aldeias, formaram seus grupos, conheceram-se nessa troca de relações. Tal evolução humana propiciou vínculos mais estreitos, relações de vizinhanças ao ponto de podermos dizer que o homem descobriu ainda ali, a necessidade de conviver com outros de sua mesma espécie, de fazer amizades, de trocar afinidades. Contudo, o avanço não parou e, cada vez mais, tornou-se uma realidade humana com o grande aparecimento de novas tecnologias, com ferramentas multiformes que vieram possibilitar ainda mais o encontro de pessoas. O homem pós-moderno, neste tempo de cibercultura, é o homem da comunicação.

      A Vida Consagrada, chamada a ser nômade de Deus no árduo processo de idas e vindas, é desafiada a caminhar também sobre este grande terreno chamado “espaço virtual”. Um processo que requer maturidade, olhar atento e coração samaritano, semelhante àquele que, caminhando de Jerusalém a Jericó, deparou-se com o homem ferido pelos salteadores, sentiu compaixão e aproximou-se para tratar-lhe os ferimentos, não obstante às diferenças entre ambos. Esta parábola poderá nortear nossa reflexão.

      Como já falamos da evolução, tal evento trouxe para a vida do homem uma exaustiva carga de informações e propostas tentadoras que, por vezes, ultrapassam os muros dos conventos e casas paroquiais. Assim, é pertinente que prestemos a devida atenção, pois aqui, “existem aspectos problemáticos: a velocidade da informação supera a nossa capacidade de reflexão e discernimento, e não permite-nos fazer uma expressão equilibrada e correta de si mesma”.[1]

    Tantos meios interligados entre si, ao mesmo tempo, entram em contradição quando perdem os vínculos tradicionais, e aqueles que seguem conectados por um toque do dedo, ficam cada vez mais distantes do encontro pessoal. “O resultado dessa traição, isto é, a possível separação entre conexão e encontro, entre compartilhamento e relação, é aquela sugerida pelo título de um ensaio do psicanalista Luigi Zoja: La morte del prossimo (A morte do próximo)”.[2]

      O Papa Francisco, na sua mensagem para o Dia Mundial das Comunicações Sociais de 2014, já dizia que os meios de comunicação que hoje aproximam as pessoas, que vêm tornando cada vez menor o mundo, “deveria fazer-nos mais próximos uns dos outros”. Tal premissa vem perdendo a sua validade num mundo de grandes casos de isolamento e depressão, de pessoas trancafiadas em si mesmas, de pessoas seletivas, que conversam com quem mais lhes é convenientes.

     Vivemos uma crise de convivências físicas, pois o virtual tornou-se um mundo “quase verdadeiro” que tudo parece ser tão mágico, tão fácil de excluir ou incluir, de deletar ou de salvar, de bloquear ou de interagir. As escolhas são de fácil execução prática. Neste cenário virtual, a Vida Consagrada é convidada a viver a “mística do encontro” que o Papa Francisco já acenara no seu Magistério: “no nosso tempo, dominado pela comunicação pervasiva e global e, ao mesmo tempo, pela incapacidade de comunicar com autenticidade, a vida consagrada é chamada a ser sinal da possibilidade de relações humanas acolhedoras, transparentes, sinceras”.[3] Assim, a rede virtual para a Vida Consagrada não deverá ser apenas um instrumento de comunicação que se pode ou não usar, mas deve ser entendida como um “ambiente” onde acontece novas formas de educação e cultura, no qual seja possível estreitar os relacionamentos. Para Spadaro (2014, p.17) “é um modo de habitar o mundo e de organizá-lo”. Ver-se desse modo que o espaço na rede, vislumbrasse no modo como vivemos no espaço geográfico de carne e osso. É uma projeção bem verdadeira daquilo que, de fato, somos ou queremos fazer, “logo um ‘lugar’ específico dentro do qual se pode entrar em alguns momentos para viver online e do qual sair para entrar na vida off-line”.[4]

     Esse ambiente existe para nós. É fato! Agora, o modo como habitamos nele é que fará toda a diferença e nos transformará em pessoas melhores, mais próximas, acolhedoras, ao modo que o contrário também é possível, pois poderá nos distanciar dos outros pelo simples fato de preferir o grupo que quero interagir ou escolher, com quem devo fazer-me amigo, de tomada de escolhas (feitas muitas vezes sem maturidade).

     Tomemos mais uma vez a parábola do Bom Samaritano. Atentemos o nosso olhar para esta cena: vendo o pobre homem apanhado em dor, jogado ao chão, o Samaritano não apenas tornou-se próximo, mas cuidou das feridas. Neste caso, “não se trata de conhecer o outro como meu semelhante, mas da minha capacidade para me fazer semelhante ao outro”.[5] O Papa Francisco fazendo esta comparação com o que ele chama de “proximidade”, admoesta-nos para algo mais profundo: “Naquele tempo, eram condicionados pelas regras da pureza ritual. Hoje, corremos o risco de que alguns meios nos condicionem até o ponto de fazer-nos ignorar o nosso próximo real”.[6]

    Vemos que, o plano virtual, apresenta-nos aquilo que já há muito aprendemos ou estamos aprendendo no plano real, físico. A parábola aponta para uma alteridade mais sensível e realista, isto é, a certeza de que não estamos sozinhos no mundo e, o nosso “dedo”, quando acionado aos comandos virtuais, não pode manipular a tudo e a todos ao meu próprio gosto. Existe um “outro”, existe um grupo além de mim mesmo e que somente posso considerar-me “eu-individual” quando sou/estou para o outro, quando permito-me realizar um contato com o outro. Há uma relação de um-para-o-outro que torna-nos diferentes e arranca-nos do indiferentismo. Eis a proposta de Papa Francisco aos/às religiosos/as consagrados/as: proximidade e encontro. Segundo o religioso Papa, estas palavras fomentam a tarefa de despertar o mundo, de irmos ao encontro dos homens e mulheres hodiernos.

     Há uma linguagem cibernética que, se olhada de forma criteriosa, perceberemos que elas começam a “influir também no modo de pensar a fé cristã”. Spadaro diz em sua obra que, o homem agindo nesses espaços tecnológicos, na verdade estão vislumbrando-se “nos desejos que o ser humano sempre teve e aos quais procura satisfazer.”[7] A forma como me apresento no espaço virtual, é apenas uma sobra real daquilo que sou ou daquilo que almejo de mais preciso na vida quotidiana. Por isso, o/a consagrado/a deve perceber-se e sentir-se num estado de alteridade e nunca de individualismo, pois se assim não for, quebraria o sentimento de pertença à vida do outro – não para especular a vida alheia – , mas ser para o outro e viver com o outro todas as suas fases, quer de alegrias quer de dores, como no caminho de Emaús. Como Jesus com os discípulos, acolhamos na companhia diária as alegrias e as dores das pessoas, dando calor ao coração, enquanto esperamos com ternura os cansados e os fracos, a fim de que a caminhada comum tenha em Cristo luz e significado.[8]

     Estamos submergidos numa avalanche de novidades tecnológicas e de informação, “e nunca termina a lista da comunicação em tempo real e das informações exageradas que nos distraem do essencial e não nos fazem criar comunhão com ninguém, na verdade, fazem-nos viver no mundo virtual afastando-nos das relações fraternas”.[9] É o desafio que atravessamos e que, de forma especial, a juventude enfrenta. Os seminários e as casas de formação recebem agora rapazes e moças com uma mala a mais na bagagem, a que carrega um mundo inteiro na palma da mão, e que por isso, sentem-se na liberdade dar um enter quando querem, ou um delete quando o outro não condiz com meu perfil e, nesse sentido, o Magistério de Papa Francisco indica que, a Vida Consagrada assim como todo cristão, é chamada a ultrapassar as barreiras virtuais, criando relações humanas acolhedoras, transparentes e sinceras, sendo nômades das periferias, também virtuais.

     Por fim, para não alongar-me, pois a leitura longa é menos proveitosa e construtiva num tempo em que a tecnologia alcançou tal velocidade e singularidade. Não há tanta procura por textos longos, mas por imagens e frases soltas que estão em evidência nos dias atuais. Pretendo voltar com outras analogias, querendo sempre trazer a semelhança que há entre a tecnologia, os meios de comunicações de modo especial, os virtuais – nas suas linguagens -, com os sujeitos que vivem a nossa fé cristã, particularmente a Vida Consagrada.

    Que a Bem-Aventurada Madre Maria Pia Mastena, ajude-nos a preservarmos o nosso coração e a não desperdiçarmos nossa vocação inutilmente, mas gastá-la com algo que seja aperitivo à glória futura. Ela sempre quis que nossas casas, isto é, nossas comunidades da Sagrada Face, sejam verdadeiros “Centros de Reparação”. Façamos o mesmo com nossas “casas virtuais”, procurando também ali, sermos solidários e vermos o Rosto oculto de Jesus do outro lado do fio, do iPhone, qualquer que seja o aparato tecnológico, não apenas vermos, mas de sentirmos também suas dores e alegrias. Que assim seja!

Alfredo Leonardo Fernandes

[1] Francisco, Comunicação a serviço de uma autêntica cultura do encontro. Mensagem para o 48º Dia Mundial das Comunicações Sociais (2014).

[2] A. Spadaro, Ciberteologia Pensar o Cristianismos nos tempos da rede. Paulinas, São Paulo 2012, p. 62.

[3] PERSCRUTAI, n. 13

[4] A. Spadaro, Ciberteologia Pensar o Cristianismos nos tempos da rede. Paulinas, São Paulo 2012, p. 18.

[5] Francisco, Comunicação a serviço de uma autêntica cultura do encontro. Mensagem para o 48º Dia Mundial das Comunicações Sociais (2014).

[6] Idem

[7] A. Spadaro, Ciberteologia Pensar o Cristianismos nos tempos da rede. Paulinas, São Paulo 2012, p. 16.

[8] ALEGRAI-VOS, n. 10

[9] Madre Annalisa Galli, Carta dirigida à Congregação. Passalanotizia, n. 1, 2015.

Comentários

  • […] Tantos meios interligados entre si, ao mesmo tempo, entram em contradição quando perdem os vínculos tradicionais, e aqueles que seguem conectados por um toque do dedo, ficam cada vez mais distantes do encontro pessoal. “O resultado dessa traição, isto é, a possível separação entre conexão e encontro, entre compartilhamento e relação, é aquela sugerida pelo título de um ensaio do psicanalista Luigi Zoja: La morte del prossimo (A morte do próximo)”.[2] […]

  • Nome

    E-mail

    Comentário